Precisamos mesmo de concursos de beleza em 2016?

PUBLICADO EM 26/09/2016 NA M TRENDS, VEJA LINK AQUI.

Com a exibição do “Miss Brasil”, no dia 1º de outubro, analisamos a importância deste tipo de competição em um mundo cada vez mais preocupado com a diversidade nos padrões de beleza.

Concursos de beleza, por mais anacrônicos que possam parecer, ainda são um bom negócio em 2016, ou melhor: um negócio milionário. Para se ter uma ideia, a empresa por trás do Miss Universo, a The Miss Universe Organization, que até o ano passado era controlada pelo candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, tem valor estimado entre 5 e 25 milhões de dólares, conforme informa a declaração de bens do empresário. Mas, mesmo com tanto dinheiro envolvido, ainda faz sentido existir uma competição que, além de colocar mulheres usando biquínis “brigando” por uma faixa e uma coroa, há anos, reforça um determinado padrão de beleza?

Para Valéria Brandini, antropóloga do consumo e comunicóloga, não. De acordo com ela, quando os concursos ganharam força, lá nos anos 1950, cumpriam certo papel. Naquela época, a mulher não estava tão presente no mercado de trabalho, ela era “propriedade” do pai e, depois, do marido. E, conquistar o título de Miss, por exemplo, era uma forma de ser alguma coisa. “A beleza era o grande capital de valor feminino. Em uma sociedade machista na qual ela não tinha muitas escolhas, ser linda era a única coisa que uma garota podia ser. Apesar de ser só sobre aparência, simbolizava algo muito maior, como liberdade”, explica.

Corta para 2016: um em cada três brasileiros acredita que, nos casos de estupro, a culpa é da mulher, segundo recente pesquisa Datafolha. O Brasil também é o país onde 13 mulheres foram mortas por dia, em 2013, e o feminicídio contra negras, em dez anos, cresceu cerca de 54%, como informa o Mapa da Violência 2015. No mercado de trabalho a situação também não é lá das mais favoráveis e o salário delas ainda continua inferior ao dos homens. Sim, são dados nada honrosos que servem para lembrar  que, infelizmente, a vida das mulheres continua bastante difícil tanto aqui, quanto em outras partes do planeta. Porém, pelo menos no mundo ocidental, elas conquistaram algo que era impensável 70 anos atrás: o direito da possibilidade.

“Esses concursos sempre vão encontrar relevância em lugares onde a beleza ainda é um capital social, normalmente em sociedades muito machistas como a nossa. Porém, a mulher descobriu que pode ser muito mais do que ‘apenas’ bonita: ela pode ser e fazer o quiser. Pode não casar, não ter filhos, pode ser mais integral. Pode, inclusive, participar de uma competição de ‘miss'”, diz Valéria.

Para ela, se no passado participar de um concurso poderia ser encarado como pura falta de alternativa, o mesmo não pode ser dito sobre os dias atuais: “Não acredito que essas mulheres se sintam oprimidas, elas devem enxergar mais como uma forma de projeção para carreiras artísticas do que uma imposição”.

Representatividade importa

As meninas continuam sendo criadas para serem ~belas, recatadas e do lar~, enquanto os garotos, quando levados e arteiros, são celebrados, como declara Valéria. Mas, graças a novos e bons exemplos de #GirlPower, as mulheres não querem mais ser vistas somente pelo lado exterior e chegam até a rejeitar quem opta por esse caminho. “Hoje, uma mulher que for criada somente para ser bonita vai se dar muito mal”, avalia.

Pensando nisso, como forma de atualizar essas competições para os ~novos tempos~, algumas delas, como o Miss America, costumam dizer não se tratar de um concurso, mas uma grande bolsa de estudos para jovens garotas (lembra dessa cena no filme “Miss Simpatia”?). A verdade é que, pelo menos nos Estados Unidos, as vencedoras recebem apenas uma parte do prometido, além do fato de que podem gastar muito mais dinheiro do que ganhar, afinal, vestidos, maquiagens, viagens, taxas de inscrição custam alguns bons trocados, não é mesmo?

Outro ponto de atenção é a missão do “Miss Universo”:

“FORNECER AS FERRAMENTAS NECESSÁRIAS PARA UMA MULHER ESTAR EM SEU MELHOR. AUTOCONFIANÇA É A CHAVE. TODA MULHER DEVE TER A CONFIANÇA PARA ENCARAR QUALQUER SITUAÇÃO E DECLARAR: ‘EU SOU SEGURA E ISSO É O QUE ME FAZ BONITA”

Apesar das linhas finais, a mensagem da empresa é clara: uma mulher só pode ser confiante se for bonita. Pior é observar quem são as competidoras – e as exigências feitas a elas – e chegar à conclusão de que, segundo o concurso, uma mulher só é bonita quando encaixada nesse padrão eurocêntrico perpetuado por anos.

Por isso, concursos que fogem à regra, como os que celebram as gordas e as negras, fazem um contraponto e até inspiram uma certa razão para existirem em 2016. “Não tem jeito, a mulher sempre precisa estar bonita. Até mesmo nessas competições que promovem a diversidade. Porém, ainda é maravilhoso ver, por exemplo, uma garota preta com black power saindo vencedora do Miss São Paulo“, avalia Vanessa Rodrigues, jornalista, blogueira e criadora do projeto feminista Não Foi Ciúme, página que reúne relatos de violência contra mulher.

Essa é a mesma opinião de Valéria, que vai além ao pontuar que os concursos não reforçam os padrões de beleza, mas são o reflexo do que a sociedade foi ensinada a achar bonito: “A mulher aprende desde criança que o bonito é ser magro, ter o cabelo liso, usar rosa… Por isso, é tão importante a incorporação da diversidade no nosso dia a dia. Somente dessa forma, as futuras gerações vão começar a enxergar beleza em diferentes padrões, seja na negra com características da beleza negra, seja na plus size”.

Vanessa afirma que, sim, a imposição da beleza é algo opressivo para qualquer mulher e o mundo ideal não deveria ter essa obrigação, mas quando você usa um concurso para colocar luz sobre mulheres que nunca são celebradas, isso pode ser realmente empoderador. “Para algumas mulheres, ter sua beleza reconhecida é fortalecedor”, diz.

Porque, já que os concursos vão continuar existindo – e rendendo milhões de dólares -, melhor que eles assumam um papel de verdadeiramente empoderar e representar todas as mulheres.

valeria

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